Estava atrasada.
Havia acabado de sair da faculdade.
Não via a hora de estar em casa. Estava muito cansada.
Sentei-me no ponto a espera de um ônibus.
Não havia muitas pessoas. Uma mulher com uma criança, um senhor e duas moças.
Todos se espremiam em baixo do telhado enferrujado do ponto, em busca de um pouco de sombra.
Estava muito sol.
Dali a alguns minutos apareceu mais alguém.
Cabelos até o ombro, crespo e avermelhados. Óculos de sol escuro, batom bem vermelhos destacando os lábios grandes. Usava uma blusa bem colorida, meio larga, saia jeans curta, salto alto e bem fino. Segurava uma bolsa enorme de couro.
Era um travesti.
Assim que chegou, pode-se notar o desconforto das demais pessoas ali presente.
Todos a olhavam-na com desprezo.
A mulher pegou a criança pelo braço e foi para um canto. As moças riam. O senhor nada fez, apenas estava ali.
Ao perceber a reação das pessoas, ela se afastou.
E ficou ali sozinha, cabisbaixa.
Quanta crueldade !
O que têm de mais em uma pessoa ser o que ela é ?
Isso é ridículo, falta de respeito.
Logo o ônibus chegou.
Todo mundo se apressou para entrar.
Ela permaneceu imóvel. Foi a ultima a entrar, logo depois de mim.
Quando subiu no ônibus, se atrapalhou e enroscou a enorme bolsa na porta.
Desci para ajuda-la. Enquanto isso, alguns riam da situação, o motorista buzinava para nos apressarmos.
Consegui soltar a bolsa. Ela agradeceu com um sorriso tímido.
Sentei-me.
Ela ficou de pé. Procurava um lugar vazio.
Sentou-se a minha frente.
Ao longo do caminho iam entrando mais pessoas no ônibus.
Havia pessoas de pé e apenas um lugar vazio ao lado do travesti.
Se recusavam a sentar do lado dela, como se estivesse infectada com uma doença contagiosa.
Observava-a com seus gestos frios.
Mãos inquietas.
Parecia estar nervosa, apreensiva.
No movimento de abrir e fechar as mãos, pude perceber algumas manchas escuras entre os dedos.
Ela esfregava as pontas dos dedos na tentativa de tirá-las.
Talves tivesse se queimado, ou quem sabe até, seria manchas de esmalte.
O celular tocou algumas vezes, ela não o atendeu.
Minutos depois ela abriu a bolsa e começou a vasculhar, como se estivesse procurando algo.
Tirou o celular e o atendeu.
Falava baixinho, parecia mais estar sussurrando.
Poucas palavras se entendia.
Ela desligou. Pôs a mão sobre o rosto como se fosse chorar.
E foi o que fez. Chorou.
Sem se importar com o que as pessoas poderiam pensar, chorou.
Até mesmo porque as pessoas já estavam pensando.
Não sei por que mas, resolvi levantar, ir até ela e tentar ajudar de alguma forma.
Levantei de onde estava sentada e fui sentar-me ao lado dela.
Não sabia muito bem o que dizer.
Ela tirou os óculos segurou-os nas mãos e enxugou as lágrimas.
-- Precisa de ajuda ? - perguntei olhando-a fixamente.
Ela levantou a cabeça, segurou em minha mãos e disse:
-- Não, não preciso de ajuda. A humanidade é que precisa -- disse sorrindo.
O ônibus parou.
Ela desceu.
terça-feira, janeiro 11
Forget
Postado por Hellen ._. às 16:35
Marcadores: Histórias*
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